Relatório Descritivo da Patente de Invenção para "USO DE Cl-CLOSPORINAS MODIFICADAS PARA O TRATAMENTO DE DISTÚRBIOS POR HCV". A presente invenção refere-se a um novo uso para ciclosporinas não-imunossupressoras.
As ciclosporinas compreendem uma classe de undecapeptídios poli-N-metilados, cíclicos e estruturalmente distintos, comumente possuindo atividade farmacológica, em particular imunossupressora, ou antiinflamató-ria. A primeira das ciclosporinas a ser isolada foi o metabolito fúngico de o-corrência natural ciclosporin ou ciclosporina, também conhecida como ciclosporina A.
Está bem-estabelecido que a ciclosporina A age por interferência com o processo de ativação das células T, mediante bloqueio do início de transcrição de IL-2. Demonstrou-se que a cicloporina A forma um complexo com uma proteína citosólica de 17 kD chamada de ciclofilina, que ocorre em muitos tipos de células e que foi demonstrada como sendo idêntica à pepti-dil-prolil cis-trans isomerase, uma enzima envolvida no dobramento de proteínas.
Entretanto, verificou-se que a ligação à ciclofilina é um critério necessário, mas não suficiente, para a atividade imunossupressora. O complexo ciclosporina A/ciclofilina também pode se associar à proteína celular chamada de calcineurina (CN), que pertence à superfamília fosfatase. Essa ligação anula sua atividade fosfatase, resultando no silenciamento do fator de transcrição NF-AT. A inibição da via CN/NF-AT é o mecanismo essencial para a imunossupressão mediada por ciclosporina A.
Foram identificadas ciclosporinas que se ligam fortemente à ct-clofilina, mas que não são imunossupressoras. Uma ciclosporina é considerada como sendo não-imunossupressora, quando tem uma atividade na Reação de Linfócitos Mistos (MLR) de no máximo 5%, de preferência no máximo 2%, daquela da ciclosporina A. A Reação de Linfócitos Mistos é descrita por T. Meo em "Immunological Methods", L. Lefkovits e B. Peris, Eds., Academic Press, N.Y. pp. 227 - 239 (1979). Células esplênicas (0,5 x 106) de camundongos Balb/c (fêmeas, 8-10 semanas) são co-incubadas durante 5 dias com 0,5 x 106 células esplênicas irradiadas (2.000 rads) ou tratadas com mitomicina C de camundongos CBA (fêmeas, 8-10 semanas). As células alogeneicas irradiadas induzem uma resposta proliferativa nas células esplênicas Balb c, que pode ser medida por incorporação de precursor marcado no DNA. Como as células estimuladoras são irradiadas (ou tratadas com mitomicina C), não respondem às células Balb/c com proliferação, mas retêm sua antigenicidade. A IC5o encontrada para o composto de teste na MLR é comparada com a encontrada para ciclosporina A em um experimento paralelo. Além disso, ciclosporinas não-imunossupressoras não têm a capacidade de inibir CN e a via NF-AT a jusante. A EP 0 484 281 A1 expõe o uso de ciclosporinas não-imunossu-pressoras no tratamento de AIDS e distúrbios relacionados à AIDS.
Verificou-se, surpreendentemente, que ciclosporinas não-imunossupressoras que se ligam à ciclofilina têm um efeito inibidor sobre o vírus da hepatite C (HCV). A infecção persistente por HCV, que foi identificado como o principal agente causador de hepatite não-A, não-B, é considerada intimamente relacionada a doenças hepáticas como hepatite crônica, cirrose hepática ou carcinoma hepatocelular. O desenvolvimento dessas doenças hepáticas é um importante problema de saúde pública. A terapia anti-HCV eficaz está restrita à terapia com interferon ou uma combinação de interferon e ribavirin. Entretanto, como o vírus não é eliminado de cerca de metade dos pacientes com HCV tratados com esses agentes conhecidos, ainda há uma grande necessidade de agentes anti-HCV alternativos.
Portanto, a presente invenção apresenta o uso de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora na prevenção ou tratamento de infecções de hepatite C ou distúrbios induzidos por HCV.
Infecções por hepatite C ou distúrbios induzidos por HCV são, por exemplo, a hepatite crônica, cirrose hepática ou câncer de fígado, por exemplo, carcinoma hepatocelular. As ciclosporinas de ligação à ciclofilina não-imunossupressoras também podem ser usadas, por exemplo, como um tratamento profilático em recém-nascidos de mães infectadas com HCV ou de trabalhadores da área de saúde expostos ao vírus, ou de receptores de transplantes, por exemplo, receptores de transplantes de órgãos ou de tecidos, por exemplo, transplante de fígado, para eliminar uma possível infecção por HCV recorrente após o transplante.
Uma ciclosporina é considerada como de ligação à ciclofilina se se ligar a ciclofilina recombinante humana pelo menos um quinto das vezes que o fizer a ciclosporina A no teste ELISA competitivo descrito por Quesni-aux em Eur. J. Immunol. 1987 17 1359 - 1365. Nesse teste, a ciclosporina a ser testada é adicionada durante a incubação da ciclofilina com ciclosporina A revestida com BSA, e se calcula a concentração requerida para proporcionar uma inibição de 50% da reação de controle sem competidor (1C5O). Os resultados são expressos como Razão de Ligação (BR), que é o log na base 10 da razão da IC50 do composto de teste para a IC5o em um teste simultâneo da própria ciclosporina A. Assim, uma BR de 1,0 indica que o composto de teste se liga à ciclofilina humana a um fator de dez menos do que a ciclosporina A, e um valor negativo indica uma ligação mais forte do que a da ciclosporina A. As ciclosporinas ativadas contra HCV têm uma BR menor que 0,7, de preferência igual a ou menor que zero.
Exemplos de ciclosporinas de ligação à ciclofilina não-imunossu-pressoras incluem, por exemplo, compostos de Fórmula I em que W é MeBmt, dihidro-MeBmt, 8’-hidróxi-MeBmt ou O-acetil-MeBmt1; X é aAbu, Vai, Thr, Nva ou 0-metil treonina (MeOThr); R é Pro, Sar, (D)-MeSer, (D)-MeAla ou (D)-MeSer(Oacetil); Y é MeLeu, thioMeLeu, γ-hidróxi-MeLeu, Melle, MeVal, MeThr, MeAla, Mealle ou MeaThr; N-etilVal, N-etillle, N-etilThr, N-etilPhe, N-etilTyr ou N-etilThr(Oacetil); Z é Vai, Leu, MeVal ou MeLeu; Q é MeLeu, γ-hidróxi-MeLeu, MeAla ou Pro;
Ti é (D)Ala ou Lys; T2 é MeLeu ou γ-hidróxi-MeLeu; e T3 é MeLeu ou MeAla.
Compostos preferidos de fórmula I são, por exemplo, compostos de fórmula la em que W’ é MeBmt, dihidro-MeBmt ou 8’-hidróxi-MeBmt; X é aAbu, Vai, Thr, Nva ou 0-metil treonina (MeOThr); R’ é Sar, (D)-MeSer, (D)-MeAla ou (D)-MeSer(Oacetil); Y’ é MeLeu, γ-hidróxi-MeLeu, Melle, MeVal, MeThr, MeAla, Me- alle ou MeaThr; N-etilVal, N-etillle, N-etilThr, N-etilPhe, N-etilTyr ou N-etilThr (Oacetil); Z é Vai, Leu, MeVal ou MeLeu; e Q’ é MeLeu, γ-hidróxi-MeLeu ou MeAla.
Os grupos W’, X, Y’, Z, Q’ e R’ têm, independentemente, os seguinte significados preferidos: W’ é, de preferência, W", em que W" é MeBmt ou diidro-MeBmt; X é, de preferência, X’, em que X* é aAbu ou Nva, mais preferí- vel X”, em que X" é aAbu; R’ é, de preferência, R", em que R" é Sar; Y’ é, de preferência, Y", em que Y" é γ-hidróxi-MeLeu, MeVal, MeThr, Melle, N-etillle ou N-etilVal; Z é, de preferência, Z’, em que Z’ é Vai ou MeVal; e Q’ é, de preferência, Q", em que Q" é MeLeu.
Um grupo preferido de compostos de fórmula la são aqueles em que W’ é W”, X é X’, Y é Y", Z é Z’, Q’ é Q", e R’ é R".
Exemplos de compostos preferidos de fórmula la são, por exem- plo; a) [dihidro-MeBmt]1-[Y-hidróxi-MeLeu]4-ciclosporina; BR* = 0,1; IR< 1% b) [MeVal]4-ciclosporina; BR = 0,1; IR< 1% c) [Melle]4-ciclosporina; BR = -0,2; IR < 1% d) [MeThr]4-ciclosporina; e) [Y-hidróxi-MeLeu]4-ciclosporina; BR = 0,4; IR < 1% f) [etil-lle]4-ciclosporina; BR = 0,1; IR < 2% g) [etií-Val]4-ciclosporina; BR = 0; IR < 2% h) [Nva]2-[Y-hidróxi-MeLeu]4-ciclosporina; i) [Y-hidróxÍ-MeLeu]4-[Y-hidróxi-MeLeu]6-ciclosporina; j) [MeVal]5-ciclosporina; BR - 0,4; IR = 5,3% k) [MeOThr]2-[(D)MeAla]3-[MeVal]5-ciclosporina; l) [8'-hidróxi-MeBmt]1-ciclosporina; BR = 0,35; IR = 1,8% m) [MeAla]6-ciclosporina; BR = -0,4; IR = 3,2 n) [Y-hidróxt-MeLeu]9-ciclosporina; BR = 0,15; IR = 2,9 IR = razão imunossupressora, expressa como uma percentagem da atividade com relação à ciclosporina A.
Exemplos adicionais de ciclosporinas não-imunossupressoras são os compostos apresentados em WO 98/28330, WO 98/28329 e WO 98/28328, cujos conteúdos são aqui incorporados por referência, por exemplo, compostos de fórmula II em que Waé em que Ra é um resíduo de fórmula Ic ou Id -CH2-CH=CH-CH2-R4 Ic; ou -CH2-SH-R’4 ld em que R4 é Cm alquiltio, amino Ci_4 alquiltio, Cm alquilamino Cm alquiltio, di Cm alquilamino Cm alquiltio, pirimidiniltio, tiazoliltio, N-Cm alquilimidazoliltio, hidróxi Cm alquilfeniltio, hidróxi Cm alquilfenóxi, nitrofenilamino ou 2-oxopiri-midin-1-ila, e R’4 é Cm alquila;
Xa é Abu;
Ra é -NMe-CH(Rb)-CO-, em que Rb é H ou -S-Alk-R0, em que Alk-Ro é metila; ou Alk é C2-6 alquileno linear ou ramificado ou C3-6 cicloalqui-leno, e Ro é H; OH; COOH; C2-5 alcoxicarbonila; NR-|R2, em que cada de R1 e R2 é independentemente selecionado de H, Cm alquila, C2-4 alquenila, C3.6 cicloalquila e fenila, cada um opcionalmente substituído por halogênio, Cm alcóxi, C2,5 alcoxicarbonila, amina, Cm alquilamino e/ou di Cm alquilamino, e benzila e um radical heterocíclico, a dita benzila e os radicais heterocíclicos sendo saturados ou insaturados e contendo 5 ou 6 elementos de anel e 1 a 3 heteroátomos, ou R1 e R2 formam, juntamente com 0 átomo de nitrogênio ao qual estão ligados, um heterociclo de 4 a 6 elementos, que pode conter outro heteroátomo escolhido de nitrogênio, oxigênio e enxofre, e que é opcionalmente substituído por Ci_4 alquila, fenila ou benzila; ou cada de R1 e R2 é independentemente um radical de fórmula Ib em que R-t e R2 são conforme acima definidos, R3 é H ou Cm alquila, e n é um número inteiro que varia de 2 a 4;
Ya é MeLeu ou γ-hidróxi-MeLeu;
Za é Vai; e Qa é MeLeu, contanto que Rb não seja H, quando Ya é MeLeu, ou um sal farmaceuticamente aceitável do mesmo.
Na fórmula II, quando R1 e/ou R2 é um resíduo heterocíclico, pode ser piridila, tetrahidropiridila, piperidila, imidazolila, oxazolila ou tiazolila.
Quando Ri e R2 formam um resíduo heterocíclico com o átomo de nitrogênio ao qual estão ligados, a título de exemplo, o resíduo heterocíclico pode ser escolhido de azetidinila, piperidila, piperazinila, N-metil-piperazinila, N-fenilpi-perazinila, N-benzilpiperazinila, piridila, imidazolila, morfolino, tiomorfolino, tetrahidropiridila, metiltetrahidropiridila (por exemplo, 4-metil-tetrahidropiri-dila) ou feníltetrahidropiridila (por exemplo, 4-feniltetraidropiridila).
Os compostos de fórmula I, Ia ou II podem ser obtidos de várias maneiras, que podem ser classificadas como: 1) fermentação 2) biotransformação 3) derivatização 4) síntese parcial 5) síntese total conforme exposto, por exemplo, em EP 0 484 281 A1, WO 00/01715, WO 98/28330, WO 98/28329 ou WO 98/28328, cujos conteúdos são aqui incorporados por referência.
Em uma série de modalidades específicas ou alternativas adicionais, a invenção também apresenta: 1.1 Um método para prevenir ou tratar infecções de hepatite C ou distúrbios induzidos por HCV em um indivíduo que necessite disso, compreendendo a administração ao dito indivíduo de uma quantidade terapeuticamente eficaz de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossu-pressora, por exemplo, um composto de fórmula I, Ia ou II. De acordo com a invenção, a ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora pode ser administrada em uma quantidade eficaz para aliviar ou eliminar um ou mais dos sinais ou sintomas de hepatite C, por exemplo, eficaz para reduzir o RNA de HCV medido em uma amostra de soro do indivíduo. 1.2 Um método para inibir a replicação de HCV em um meio, compreendendo a aplicação a esse meio de uma quantidade eficaz de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora, por exemplo, um composto de fórmula I, Ia ou II. 1.3 Um método para inibir a replicação de HCV em um paciente que necessite disso, compreendendo a administração a esse indivíduo de uma quantidade terapeuticamente eficaz de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora, por exemplo, um composto de fórmula I, la ou II. 1.4 Um método para prevenir a recorrência de infecção por HCV em um receptor de transplante que necessite disso, compreendendo a administração ao dito receptor de uma quantidade terapeuticamente eficaz de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora, por exemplo, um composto de fórmula I, la ou II. 2. Uso de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora, por exemplo, um composto de fórmula I, la ou II, na preparação de uma composição farmacêutica para uso em qualquer dos métodos acima definidos. 3. Composição farmacêutica para uso em qualquer um dos métodos acima definidos, compreendendo uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora, porexemplo, um composto de fórmula I, la ou II, juntamente com um ou mais diluentes ou veículos farmaceuticamente aceitáveis. A utilidade das ciclosporinas de ligação à ciclofilina não-imunos-supressoras (daqui por diante, "ciclosporinas da invenção") no tratamento de doenças e condições conforme acima especificado pode ser demonstrada em testes com animais ou clínicos padronizados, por exemplo, de acordo com os métodos descritos a seguir. A. In vitro Cultura celular: células Huh-7 e MH-14, células com réplicon de HCV, são cultivadas em meio de Eagle modificado por Dulbecco (DMEM) com soro bovino fetal a 10% (FBS). Células PH5CH8 são cultivadas em uma mistura a 1:1 de DMEM e meio F12 suplementado com 100 ng/mL de fator de crescimento epidérmico, 10 μ/mL de insulina, 0,36 pg/mL de hidrocortiso-na, 5 pg/mL de transferrina, 5 pg/mL de ácido linoléico, 20 ng/mL de selênio, 4 pg/mL de glucagon, 10 ng/mL de prolactina, 10 pg/mL de gentamicina, 200 pg/mL de canamicina e FBS a 2%.
Análise de imunotransferência: a análise de imunotransferência é realizada conforme descrito por K. Watashi et al., Virology 2001,286, 391 - 402. Os anticorpos primários usados neste experimento são anticorpos anti-NS5A, anti-NS5B e anti-p-actina (Sigma).
Análise de imunofluorescência indireta: a análise de imunofluo-rescência indireta é realizada conforme descrito por K. Watashi, supra. Os anticorpos primários usados neste experimento são anticorpos anti-NS5A e anti-PDI (StressGen).
Análise por transcrição reversa (RT)-reação em cadeia de polimerase (PCR) RNA total de células cultivadas é isolado com Sepasol-RNA I Super (nacalai tesque) conforme recomendado pelo fabricante. A análise de RT-PCR é realizada usando-se um kit de RNA PCR de uma etapa (Takara), de acordo com as direções do fabricante. Os iniciadores usados para detecção de mRNAs para 2’,5’-oligoadenilato sintetase e proteína cinase dependente de RNA de fita dupla são 5’-CCGTGAAGTTTGAGGTCCAG-3’, 5-GACTAATTCCAAGACCGTCCG-3’ e 5-TGGCCGCTAAACTTGCATATC-3', 5-GCGAGTGTGCTGGTCACTAAAG-3’, respectivamente.
Análise Northern blot: a análise Northern blot é realizada conforme descrito por H. Kishine et al., Biochem. Biophys. Res. Commun., 2002, 47, 119 - 125. A sonda complementar à seqüência NS5B usada neste experimento é descrita por H. Kishine, supra.
Análise RT-PCR em tempo real: a 5-UTR do RNA de genoma de HCV é quantificada usando-se o detector de seqüência ABI PRISM 7700 (Applied Biosystems), conforme descrito por T. Takeuchi et al., Gastroenterology, 1999,116, 636 - 642. Os iniciadores direto e reverso usados neste experimento são 5-CGGGAGAGCCATAGTGG-3’ e 5’-AGTACCACAAGGCCTTTCG-3’, respectivamente. A sonda fluorogênica é 5-CTGCGGAACCGGTGAGTACAC-3’. Como controle interno, RNA ribossômico também é quantificado usando-se Reagentes de Controle de RNA Ribossômico TaqMan (Applied Biosystems).
Experimento de infecção por HCV in vitro: o experimento de infecção por HCV in vitro é realizado essencialmente conforme descrito por N.
Kato et al., Jpn. J. Câncer Res. 1996, 87, 787 - 792, e M. Ikada et al., Virus Res., 1998, 56, 157 - 167. Células PH5CH8 (1 x 105) são infectadas com o plasma 1B-2 (equivalente a 104 a 106 cópias de RNA de HCV), que é preparado com um doador de sangue positivo para HCV. 24 h após a inoculação, as células são lavadas três vezes com salina tamponada com fosfato (PBS) e mantidas com meio fresco.
Ensaio de transfecção e repórter: a transfecção em células MH-14 e H9 é realizada usando-se FuGENE 6 (Roche) e reagente de transfecção Lipofectamine 2000 (lnvitrogen), respectivamente, de acordo com o protocolo do fabricante. O ensaio repórter é realizado conforme descrito por K. Wa-tashi, supra. Os plasmídios repórteres usados neste estudo são pNFAT-Luc, pAP1-Luc, pNFKB-Luc (PathDetect Repórter System; Stratagene) e pRL-TK (sistema de ensaio repórter por luciferase dual; Promega). O efeito de várias ciclosporinas da invenção sobre a replicação do genoma de HCV usando células MH-14, em que o réplicon subgenômico de HCV conforme mostrado na figura 1A é autonomamente replicado. O tratamento com uma ciclosporina da invenção, por exemplo, [Melle]4-ciclospo-rina, por exemplo, a 1 pg/mL, assim como 100 U/mL de IFNa, que é usada como um controle positivo durante 7 dias, diminui a quantidade de proteínas NS5A e NS5B de HCV a níveis não detectáveis por análise de imunotransfe-rência. A análise de imunofluorescência indireta mostrou que a produção de proteína NS5A está reduzida em todas as células tratadas com 1 pg/mL de ciclosporina da invenção, ao passo que o nível de proteína dissulfeto isome-rase (PDI), que é um marcador de retículo endoplasmático, como um controle interno, não é alterado sob essa condição. As ciclosporinas da invenção diminuem, nesse ensaio, a expressão de proteína de HCV em células com réplicon de HCV. O RNA de réplicon é analisado em células MH-14 tratadas com ou sem uma ciclosporina da invenção ou IFNa durante 7 dias por análise de Northern blot. O tratamento com, por exemplo, 1 pg/mL de ciclosporina da invenção, por exemplo, [Melle]4-ciclosporina, diminui a quantidade de RNA de réplicon a um nível não detectável. O tratamento com 100 U/mL de IFNa produz um efeito similar. Além disso, o título é gradualmente diminuído, e o nível de RN A de HCV é reduzido a cerca de 1/400 do original no 7° dia. No caso de um co-tratamento com IFNa, uma redução adicional em qualquer momento examinado (3°, 5° e 7° dia) em comparação com o tratamento único com a ciclosporina ou IFNa: o nível de RNA de réplicon em células MH-14 tratadas tanto com a ciclosporina, quanto com IFNa durante 7 dias está significativamente diminuído com relação ao de células tratadas com IFNa apenas.
Além disso, células PH5CH3 (linhagem celular de hepatócito não-neoplásico) são tratadas com plasma positivo para HCV, e, subseqüentemente, o título genômico de RNA de HCV em vários momentos após a inoculação é quantificado por análise RT-PCR em tempo real. Embora o título genômico de RNA de HCV no 5° dia após a inoculação nas células esteja aumentado cerca de 10 vezes em comparação com o do 1° dia, um aumento significativo do título genômico de RNA de HCV nesses momentos não foi observado nas células tratadas continuamente com uma ciclosporina da invenção, por exemplo, [Melle]4-ciclosporina, ou IFNa. As ciclosporinas da invenção inibem a replicação de hepatócitos em cultura infectados com HCV.
Os resultados são mostrados nas figuras 2E, 2F e 2G: a análise de imunotransferência (2E), análise de imunofluorescência indireta (2F) e análise RT-PCR em tempo real (2G) são realizadas usando-se células MH-14 tratadas com [Melle]4-ciclosporina (■) ou uma ciclosporina de não ligação a ciclofilina (·), por exemplo, 6-[ácido [R-(E)]-6,7-didesidro-N,4-dimetil-3-oxo-L-2-aminooctanóico]-7-L-valina-ciclosporina A. Controle em 2E e 2F (1a fileira), sem tratamento; CysA em 2E, 1 pg/mL; [Melle]4-ciclosporina em 2E (■) e 2F (■), 1 pg/mL; a ciclosporina de não-ligação a ciclofilina em 2E (·) e 2F (·), 1 pg/mL. B. Ensaio Clínico Um total de 15 pacientes com infecção de hepatite C crônica são alistados em um estudo de 2 semanas. Cada paciente recebe uma ciclosporina da invenção, por exemplo, [Melle]4-ciclosporina, a uma dose de 7 a 15 mg/kg por via oral. Os níveis séricos de antígenos de hepatite C são determinados no dia 0 e no dia 14 em cada paciente.
Uma pessoa sofrendo de infecção de hepatite C, em particular infecção crônica por HCV, pode exibir um ou mais dos seguintes sinais ou sintomas: (a) ALT elevada, (b) teste positivo para anticorpos anti-HCV, (c) presença de HCV, conforme demonstrado por um teste positivo para RNA de HCV, (d) estigmas clínicos de doença hepática crônica, (e) lesão hepato-ceíular. Esses critérios podem ser não apenas usados para diagnosticar hepatite C, mas também podem ser usados para avaliar a resposta do paciente ao tratamento medicamentoso.
Sabe-se que alanina aminotransferase (ALT) e aspartato amino-transferase (AST) sé ricas elevadas ocorrem em hepatite C não controlada, e uma resposta completa ao tratamento é em geral definida como a normalização dessas enzimas séricas, particularmente ALT (Davis et al., 1989, New Eng. J. Med. 321:1501-1506). A ALT é uma enzima liberada quando as células hepáticas são destruídas e é sintomática de infecção por HCV.
Para seguir o curso da replicação de HCV nos indivíduos em resposta ao tratamento medicamentoso, o RNA de HCV pode ser medido em amostras de soro, por exemplo, por um ensaio de reação em cadeia de polimerase alojada que usa dois conjuntos de iniciadores derivados das regiões de genes não-estruturais N53 e N54 do genoma do HCV. Farei et al., 1991, New Eng. J. Med. 325:98-104. Ulrich et al., 1990, J. Cíin. Invest., 86:1609-1614. O exame histológico de amostras de biopsia hepática pode ser usado como um segundo critério para avaliação. Veja, por exemplo, Knodell et al., 1981, Hepatology 1:431-435, cujo índice de Atividade Histoiógica (inflamação portal, necrose em saca-bocado ou em ponte, lesão lobular e fibrose) representa um método de classificação da atividade da doença.
As dosagens diárias requeridas na prática do método da presente invenção variarão dependendo, por exemplo, da ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora empregada, do hospedeiro, do modo de administração, da gravidade da condição a ser tratada. Uma faixa de dosagem diária preferida é de cerca de 1 a 50 mg/kg por dia como uma dose única ou em doses divididas. Dosagens diárias adequadas para pacientes es- tão na ordem de, por exemplo, 1 a 20 mg/kg por via oral ou intravenosa. Formas de dosagem unitária adequadas para administração oral compreendem de cerca de 0,25 a 10 mg/kg de ingrediente ativo, por exemplo, [Melle]4-ciclosporina, juntamente com um ou mais diluentes ou veículos farmaceuticamente aceitáveis.
As ciclosporinas da invenção podem ser administradas por qualquer via convencional, em particular entérica, por exemplo, oral, por exemplo, na forma de soluções para beber, comprimidos ou cápsulas, ou parenteral, por exemplo, na forma de soluções ou suspensões injetáveis. Composições farmacêuticas preferidas podem ser, por exemplo, aquelas à base de microemulsões, conforme descrito na UK 2.222.770 A.
As ciclosporinas da invenção podem ser administradas como o único ingrediente ou juntamente com outros medicamentos, por exemplo, um medicamento que tenha atividades anti-HCV, por exemplo, um interferon, por exemplo, interferon-a-2a ou interferon-a-2b, por exemplo, Intron® A, Roferon®, Avonex®, Rebif® ou Betaferon®, ou um interferon conjugado a um polímero solúvel em água ou a albumina humana, por exemplo, albuferon, um agente antiviral, por exemplo, ribavirin, lamivudina, NV08 ou NM283, um inibidor dos fatores codificados em HCV como a NS3/4A protease, a helicase ou RNA polimerase, ou um pró-medicamento desse inibidor, um agente antifibrótico, por exemplo, um derivado de N-fenil-2-pirimidina-amina, por exemplo, imati-nib, um agente modulador imune, por exemplo, ácido micofenólico, ou seu sal ou pró-medicamento, por exemplo, micofenolato de sódio ou micofenola-to mofetil, ou um agonista do receptor S1P, por exemplo, FTY720 ou seu análogo opcionalmente fosforilado, por exemplo, conforme exposto na EP 627406A1, EP 778263A1, EP 1002792A1, WO 02/18395, WO 02/76995, WO 02/06268, JP 2002316985, WO 03/29184, WO 03/29205, WO 03/62252 e WO 03/62248.
Deve-se entender que conjugados de interferon e um polímero solúvel em água incluem particularmente conjugados com homopolímeros de óxido de polialquileno, como polietileno glicol (PEG) ou polipropileno gli-cóis, polióis polioxietilenados, seus copolímeros e seus copolímeros de blo- cos. Como uma alternativa a polímeros à base de óxido de polialquileno, podem-se usar materiais efetivamente não-antigênicos, como dextrano, poli-vinil pirrolidonas, poliacrilamidas, álcoois polivinílicos, polímeros à base de carboidratos e outros. Esses conjugados de interferon-polímero são descritos nas patentes norte-americanas n-s 4.766.106, 4.917.888, no pedido de patente européia n- 0 236 987, no pedido de patente européia n° 0 510 356 e na publicação de pedido internacional n° WO 95/13090. Como a modificação polimérica reduz suficientemente as respostas antigênicas, o interferon estranho não precisa ser completa mente autólogo. O interferon usado para preparar os conjugados com polímero pode ser preparado de um extrato de mamífero, como interferon humano, de ruminante ou bovino, ou produzido de maneira recombinante. São preferidos os conjugados de interferon com polietileno glicol, também conhecidos como interferons pegilados.
Conjugados particularmente preferidos de interferon são alfa-inter-ferons pegilados, por exemplo, interferon-a-2a pegilado, interferon-a-2b pe-gilado, interferon de consenso pegilado ou produto de interferon-α purificado pegilado. O interferon-a-2a pegilado é descrito, por exemplo, na patente européia 593.868 e está comercialmente disponível, por exemplo, sob o nome comercial PEGASYS® (Hoffmann-La Roche). O interferon-a-2b pegilado é descrito, por exemplo, na patente européia 975.369 e está comercialmente disponível, por exemplo, sob o nome comercial PEG-INTRON A® (Schering Plough). O interferon de consenso pegilado é descrito em WO 96/11953. Os α-interferons pegilados preferidos são o interferon-ot-2a pegilado e interfe-ron-a-2b pegilado. Também se prefere o interferon de consenso pegilado.
As dosagens diárias com relação ao co-agente usado variarão dependendo, por exemplo, do composto empregado, do hospedeiro, do modo de administração e da gravidade da condição a ser tratada. Por exemplo, lamivudina pode ser administrada a uma dosagem diária de 100 mg. O interferon pegilado pode ser administrado por via parenteral uma a três vezes por semana, de preferência uma vez por semana, a uma dose semanal total variando de 2 a 10 milhões de IU, mais preferivelmente de 5 a 10 milhões de IU, mais preferivelmente ainda de 10 milhões de IU.
De acordo com o precedente, a presente invenção apresenta em ainda um aspecto adicional: 4. Uma combinação farmacêutica compreendendo a) um primeiro agente, que é uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupres-sora, por exemplo, um composto de fórmula I, Ia ou II, e b) um co-agente, por exemplo, um segundo agente medicamentoso conforme acima definido, por exemplo, para uso em qualquer um dos métodos acima definidos. 5. Um método, conforme acima definido, compreendendo a co-administração, por exemplo, concomitante ou em seqüência, de uma quantidade terapeuticamente eficaz de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora, por exemplo, um composto de fórmula I, la ou II, e um co-agente, por exemplo, um segundo agente medicamentoso conforme acima definido.
Os termos "co-administração" ou "administração combinada" ou similares, conforme aqui utilizados, pretendem englobara administração dos agentes terapêuticos selecionados a um único paciente, e pretendem incluir regimes de tratamento em que os agentes não sejam necessariamente administrados pela mesma via de administração ou ao mesmo tempo. A administração de uma combinação farmacêutica da invenção resulta em um efeito benéfico, por exemplo, um efeito terapêutico sinérgico, em comparação com uma monoterapia que aplique apenas um de seus ingredientes farmaceuticamente ativos. Uma combinação sinérgica preferida é uma combinação de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora com um interferon, opcionalmente conjugado a um polímero.
Uma combinação preferida adicional é uma combinação de uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora com ácido mico-fenólico, ou seu sal ou pró-medicamento, ou com um agonista do receptor S1P, por exemplo, FTY720. A [Melle]4-ciclosporina ou [MeVal]4-ciclosporina é uma ciclosporina de ligação à ciclofilina não-imunossupressora preferida para uso de a-cordo com a invenção.
REIVINDICAÇÕES